29 de jan de 2006

Poeminha bobo-com-rima na madrugada

Hoje tudo fez sentido,
estão certos os sem direção.
Em verdade, irmãos, eu vos digo:
andai na contramão.

Que o caminho é árduo, não nego,
e é no sofrimento que se vê a cura.
Não tente desfazer o nó cego,
vá, como eu, com ele pela cintura.

Mas o dia virá em que estará desfeito,
e desfeito estando, também parto,
para um decerto lindo leito,
onde o amor será farto.


mrs. mojo rising

Sempre quero algo que me tire do chão. Não, não acontece assim. Não é problema de estar careta. Muitas vezes estive mais sóbria quando não careta. E tantas outras, sozinha quanto menos sozinha.

"Sinta essa brisa", ele disse, e eu tentei sentir, e senti, e a brisa me sussurrou coisas que não fui capaz de entender. Escutei o coração do menino com olhos de vidro e pensei "não é ele". Não, não é ele que vai me tirar do chão. Talvez ninguém possa e talvez - quase certo, creio - seja cruel demais esperar isso de outra pessoa.

Tirei os sapatos, lancei-os ao ar. Os sapatos que me apertam o pé. As correntes que me prendem à terra, me arrastam para baixo, e sempre mais baixo, baixo, baixo, atravessando o chão em direção oposta à do céu com desenhos de nuvens e estrelas que já não existem.

O menino sorria, eu sorri de volta, mas não estávamos felizes. Estávamos apenas ali, caminhando, olhando em direções diferentes, embora não opostas. Eu estava ali pensando o que eu estava fazendo ali, bem ali onde nada havia que me pudesse aliviar a necessidade de querer sair do chão.

Eu estava em mim, ele, nele, e é só assim que as pessoas podem estar.


mrs. mojo rising

27 de jan de 2006

O começo

Minha primeira missão na organização foi banal, se comparada com as posteriores. Era um teste, apenas, uma provinha de seleção - eu estava concorrendo com uma sirigaita que era louca para transar com o chefe. Na época, porém, fiquei muito nervosa. Eu nunca tinha participado de algo assim, com tão alto teor de ilegalidade. Mas o medo me excita, desde pequena. O chefe disse "é pegar ou largar para sempre". Eu peguei, e peguei bem, e acho que tive meu primeiro orgasmo quando disse "eu pego".

Eu tinha 16 anos, uma criança. O alvo era a casa da bruxa mais bruxa da vizinhança, uma mulher que batia no neto de sete anos com tudo que encontrasse pela frente. A missão era dar uma surra na sujeita. E assim foi. Ninguém nunca descobriu, porque não deixei rastro. A outra, a sirigaita oferecida, foi reconhecida pela voz. Muita gente se dá mal porque fala na hora da atividade, para dar mais emoção ao ato, aumentar o terror, faz ameaças que não cumprirá. Eu não. Eu digo absolutamente nada. E não deixo cair uma gota de suor. Tenho jeito de gato preto em noite sem lua.


bonnie

25 de jan de 2006

Fratura exposta

E você vem
quanto mais não quero.
Um sonho.
Um livro.
Bebida.
Ando sem rumo.
Ando, ando, ando,
que andar é de graça.

Quantas noites ainda?
Nem sempre me basta
um dia depois do outro.
É quando tento não ser eu.
Meu deus!,
eu tento não ser eu.

Tenho vivido
de esquecimentos,
correndo das lembranças
de uma casa mal-assombrada.
Preciso entender a verdade.
É verdade, verdade, verdade:
não é você,
era você,
foi você
minha fratura mais exposta.


mrs. mojo rising

Convite

Atravessei aquele corredor como quem foge. Não, eu fugia mesmo, com toda a força das minhas pernas, frágeis, inseguras. Os copos de vinho da noite não aliviaram a dor, que é cíclica, o eterno retorno. Ao contrário, jogaram-na para fora, pondo a casa toda dolorida. O sofá, o computador, os livros, sofrendo em silêncio. Eu não estava em silêncio. Tenho, ao menos, o privilégio do choro, do grito, do ranger de dentes, da possibilidade de atravessar um corredor como quem foge.

Mas ainda que corra por toda a eternidade, não estarei livre em canto algum, que é por dentro que me bate o medo, a loucura, a insensatez de ser normal neste que é o mundo mais doente de todos os mundos já vistos ou inventados. Um pouco de paz, é o que almejo. Estenda sua mão para que eu o fure também. Só um pouco, como pouca será a paz. Nós nos furaremos e a dor poderá jorrar. Não, não minta, eu sei que ela também está aí.


mrs. mojo rising

23 de jan de 2006

Pior que arma

Às vezes não há arma no gatilho. Há coisa pior e a gente só vê o estrago depois, que é a longo prazo. Importa nada ter experiência. Talvez, apenas, um jeito mais leve de encarar o ataque. Talvez, não sei, poderia saber se fosse esperta, mas, ah, definitivamente não sou.

Foi assim quando ele chegou, meio torto, indeciso. Fingi não ver, mas vi bem, que eu vejo muito bem quando não quero. Puxou o gatilho quando eu estava exatamente olhando - não houve tempo de desvio. A bem da verdade, não tentei. Eu tento tentar, sempre, jamais consigo, e acabo estirada no chão, vítima fatal, irreversivelmente atingida, quase em coma.

Minha fixação por olhos ainda acaba comigo. Menor dúvida.


clarissa, mais rápida que bonnie, só para estrear o primeiro contículo.

Tudo pela literatura

"Traduções de três" será um blog com pretensões literárias. Não nos perguntamos mais se somos boas, apenas sabemos da necessidade de escrever e não brigamos mais com ela. Ela, a necessidade. Terrível.

Pensamos em explicar a personalidade de cada uma, mas depois decidimos que seria muito chato, muito bêabá. Não será difícil perceber, de acordo com o que cada uma escrever. Não exatamente devido ao estilo, mas pela forma como cada uma se posiciona diante dos acontecimentos, reais ou imaginários, vividos ou sonhados, ou a mistura.

Prometemos que o próximo post já será um conto de uma de nós. A que for mais rápida no gatilho. Olha a pista aí. Divirtam-se.

bonnie, pelas três.

Is there anybody in?

Estamos de volta, em outra template, com outro título e devidamente identificadas. Sejam bem-vindos os corajosos.

mrs mojo rising, pelas três.