31 de mai de 2007

De novo

Já sei o porquê das recaídas. É medo de que sua praga dê certo. Cada tombo é uma confirmação do que me disse no fim. Cada roxo na alma ratifica sua maldição. A lembrança da descoberta diante das palavras antigas que releio só faz aumentar a certeza de que você tinha razão. Está bem, pode torcer meu braço: nunca mais. E talvez nunca tenha sido. É isto: nunca foi. Há os que nasceram para amar, e eu me encontro nesse grupo, não no outro.

Mas e daí? Não estou aqui só para isso, eu sei. Há tanto para ser feito. Eu sigo incólume, as olheiras atestando uma noite produtiva, ninguém desconfia. Não tenho mais medo, porque já sei o que me espera, já sei o que é preciso fazer. Os tombos são menores agora porque não subo tão alto como antigamente. A subida séria só se faz uma vez e nenhum tombo poderá ser comparável a sua rasteira. E a cicatriz serve para que não me esqueça, a cicatriz gigante varando meu corpo internamente dos pés à cabeça. Por ser enorme é que ainda dói e isso nada tem a ver com vontade, desejo ou paixão.

Aos poucos, vou compreendendo o que se passa.


mrs. mojo rising

30 de mai de 2007

Pausa nas pretensões literárias II

Em relação à não renovação (e não fechamento) da concessão da RCTV (canal privado de TV da Venezuela), eu me abstenho.

Abstenho-me porque, de um lado, não vejo o menor problema em se não renovar uma concessão desse tipo. Quem garante que essas concessões são benéficas? Por que determinados grupos são beneficiados em detrimento de outros? Vide o caso do governo Sarney (1985-1989), que outorgou milhares de concessões de rádio a esmo, muitas para parlamentares que votaram pela emenda constitucional que lhe deu cinco anos de mandato. Será que ainda não é óbvio que o fato de um veículo de comunicação ser da iniciativa privada não garante a tão propalada liberdade de imprensa? Aliás, liberdade de imprensa é um conceito que rende. Ainda há uma agravante em relação ao caso específico: a RCTV participou ativamente da tentativa de golpe a Hugo Chávez em 2002, um presidente eleito democraticamente, gostem ou não. Não que eu seja árdua defensora da democracia representativa. Estou apenas usando os argumentos de quem anda reclamando da não renovação. Sejam, no mínimo, coerentes, coleguinhas.

Por outro lado, não me agrada também o fato de o canal virar TV pública. Na minha desconfiança em relação a governos, é óbvio que incluo o da Venezuela. Seus interesses diferem, neste momento, dos interesses da iniciativa privada que tomava conta da RCTV, mas ambos possuem algo em comum: o desinteresse pelo povo*. Se bem que, até agora, parece que o povo é mais motivo de preocupação lá do que aqui, ainda que de uma forma populista. A decisão de não renovação do canal é uma tentativa de impedir futuros ataques ao governo que, em princípio, pode merecê-los. É uma forma de afastar uma forte oposição que, em princípio, pode ser necessária.

Para quem quiser ler uma opinião diferente da que nossos jornais andam veiculando, sugestão do Flávio: Agência Carta Maior.

* Povo no sentido de plebe, classe inferior** da sociedade, o contrário de elite.

** Inferior em relação à condição econômica, política e/ou social, no sentido de subalterno.

bonnie, a gângster politicamente correta.

25 de mai de 2007

Pausa nas pretensões literárias I

Lula disse, recentemente, que greve no funcionalismo público prejudica a população, não o governo. A declaração me chamou a atenção pela separação entre duas instituições que, teoricamente, analisando-se o discurso dos defensores da democracia representativa, deveriam estar intimamente ligadas.

Ora bolas, o governo governa para quem? Se um é prejudicado, não o deveria ser também o outro? Já está tão descaradamente assumido que o governo não se importa com a população ou trata-se apenas de um ato falho? Como não vi ninguém assustado com a questão, acho que a primeira opção é a mais plausível.

Mas, então, por que as pessoas continuam acreditando nesse sistema de representatividade? Se não acreditam, por que continuam participando dele?

bonnie

21 de mai de 2007

"Ode" ao barulho

Gosto do barulho da cidade grande porque ele abafa meus barulhos internos. Só quem está bem gosta do silêncio. Eu, no silêncio, me desespero. Introspecção, para mim, é sinônimo de dor. Sim, eu me importo com a fome do mundo, com as guerras, com os mendigos que dormem na minha porta. Tenho uma compaixão incomensurável pelo ser humano, principalmente por aqueles que sofrem. Mas a minha dor também é grande, exijo respeito e, na verdade, ela inclui a humanidade inteira. É uma dor anterior a mim, assim como a necessidade de escrever. Antes de eu nascer, já estavam lá as duas, a dor e a necessidade. A diferença é apenas que agora eu entendo melhor como elas se manifestam e o que é preciso fazer para amenizá-las. Tudo que faço, porém, é paliativo.

Sei o que é chorar sozinha num banheiro sujo. Quando ouvia essa música aos dez anos de idade, não poderia imaginar que um dia saberia muito bem seu significado. Sei também o que é a depressão depois da onda, sei o que é onda ruim, sei o que é a morte de uma pessoa querida, sei como fica uma pessoa morta, sei bem. Sei o que é se sentir sozinha. Se tenho muitos amigos, é justamente porque sei. Sei o que é ficar sem dinheiro. Sei o que é traição, o que é mentira, o que é amor, o que é ódio. Sei bem o que é morrer e continuar vivo. Sei o que é acreditar, o que é decepção, o que é frustração. Sei o que é ter força e o que é ter recaída. Todas essas palavras estão muito claras no meu dicionário pessoal e intransferível.

Gosto de não ter motivo para pensar, porque eu penso demais, demais, o tempo todo. Acho linda uma paisagem bucólica, mas ela me oprime, me exige uma serenidade que não tenho. Minha perturbação não combina com a natureza. Gosto do sapato do flamenco batendo na madeira, das palmas e da mulher berrando uma música em espanhol. Gosto do rock cobrindo as cabeças, gosto de falar sem parar, de andar a esmo por entre pessoas apressadas, da pressa, do pouco tempo. Preciso disso, sobrevivo disso. Minha loucura se perde nesse turbilhão e eu passo incólume, ninguém repara. É no barulho da cidade grande que eu escondo e ignoro meus pensamentos que não cessam de me impregnar.

Só quem está bem pode gostar do silêncio. Eu, no silêncio, sinto pavor. Ouço vozes, me lembro de pessoas, de lugares, sinto saudade, vontade de mudar o passado, de mudar o mundo, questiono deus, procuro o diabo. Preciso ir para fora, porque por dentro sou doente. Adoro os passarinhos cantando de manhã na minha janela, mas eles agridem meus ouvidos amargos, falam de uma felicidade que desconheço, representam uma leveza que nunca me foi permitida. No barulho, disfarço melhor os meus monstros, ninguém os escuta. Ninguém percebe minha timidez e a vontade de gritar que preciso de ajuda. Ninguém percebe que eu amo infinitamente as coisas e pessoas e lugares e bichos na mesma intensidade com que os odeio, e que essa dualidade acaba comigo.

Eu me exponho para me esconder. Não me agüento no silêncio. Não caibo em mim.


mrs. mojo rising

20 de mai de 2007

Testamento

Não sei por que fiz aquilo. Não sei por que constantemente faço coisas que não quero. É como se houvesse outra pessoa aqui dentro, mais forte, cruel, mesquinha. Quando voltei a mim, você já estava descendo as escadas, abrindo o portão, indo embora para sempre. Sim, para sempre. É mentira que só para a morte não haja solução. Isso entre a gente também não tem solução. E embora eu esteja cheia de dívidas, quase sendo despejada e com essa maldita doença, é só sua ausência que me preocupa. Estou prestes a morrer indigentemente, sem direito a funeral cheio, bonito, amigos e família chorando, e só me preocupo com sua ausência. Não é só por eu não ter mais ninguém. Não, não é só isso. Não tenho mais ninguém porque, em parte, nunca me importei com isso, nunca fiz questão de cultivar amizade, não gosto de gente. Nunca confiei nas pessoas e tenho motivo para tanto, você sabe. Aliás, só você sabe de tudo, dessa dor, interna, externa, física e psicológica. Só você sabe o quanto tem sido difícil viver e que me assusta mais a hora da morte do que a morte em si. Pelo que já li sobre o assunto, só você me fez sentir algo próximo do que se chama de amor. Só por você senti falta de ar, insônia e taquicardia. Só em você passei um dia inteiro pensando. Só por você tive vontade de largar tudo, se eu tivesse tudo. Só por você já pensei em morrer. Agora, veja que ironia, vou morrer, mas não por você. Vou morrer sozinha, sem você, por culpa dessa outra que vive dentro de mim. Deixei você descer as escadas, falei coisas nas quais não acredito, disse o oposto do que gostaria de ter dito. E é para sempre. Mas não por que vou morrer. Não é só para a morte que não há solução. Se por um milagre eu sobrevivesse, ainda assim seria para sempre.

mrs. mojo rising

Dois perdidos

Quando eu quis você
Você não me quis
Quando eu fui feliz
Você foi ruim
Quando foi a fim
Não soube se dar
Eu estava lá
Mas você não viu

Tá fazendo frio nesse lugar
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo em mim

Se eu já me perdi
Quando perdi você
Quando eu quis você
Você desprezou
Quando se acabou
Quis voltar atrás
Quando eu fui falar
Minha voz falhou
Tudo se apagou
Você não me viu

Tá fazendo frio nesse lugar
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo em mim

Mas se eu já me perdi
Como vou me perder?
Se eu já me perdi
Quando perdi você
Mas se eu já te perdi
Como vou me perder?


(arnaldo antunes)

clarissa

12 de mai de 2007

Ansiedade

Se eu escrevesse um dicionário, definiria a palavra ansiedade da seguinte forma: sensação de que o que você quer está prestes a fugir. Não é perfeito?

Inspiração do horóscopo do jornal O Globo de hoje. Juro.

mrs. mojo rising

10 de mai de 2007

Missão na PE

Há muito não escrevo. Cometi um poema outro dia, mas é pouco. Tenho deixado o blog nas mãos da mojo e da clarissa, o que não é muito saudável. Amo minhas amigas, mas uma é super depressiva, a outra é super fofinha. Meio chato. Às vezes tenho até vergonha de fazer parte disto aqui. Sei lá, não é nada pessoal, mas não tenho muito a ver com os dramalhões que elas protagonizam.

Ontem fui convocada para uma ação no quartel da Polícia do Exército da Barão de Mesquita. Rua Barão de Mesquita n. 425. O quartel do medo. Local onde se torturavam e matavam presos políticos na época da ditadura militar. Nossa missão era conhecer o lugar por dentro para posteriormente roubar armas e arquivos daquele período nefasto. Nefasto não só por ter sido uma ditadura, gostaria de frisar, mas também por toda sua política voltada para as elites.

Quase sempre estou metida nesse tipo de ação, uma das mais difíceis. O chefe sabe que pode confiar em mim. Sou uma atriz, capaz de fazer a coitadinha ou a mais safada das putas. Sou gato preto em noite sem lua. Sou o que tiver de ser com a mesma facilidade com que espirro quando alérgica. É verdade que sinto falta de participar das ações em que as armas são utilizadas, mas o chefe prometeu que minha próxima missão será um assalto à banco. Quase gozo só de pensar.

O plano era simples: mr. white se disfarçou de estudante - jeans, tênis, mochila, chiclete, cara de quem vai mudar o mundo dali a cinco minutos - e ficou tirando fotos do quartel. Era óbvio que os merdinhas cães-de-guarda viriam tirar satisfações. Eram apenas dois àquela hora, 20h40. Um deles se aproximou, perguntou por que "o rapazinho" estava tirando foto, já colocando as patas na câmera digital. Enquanto mr. white conversava com ele, eu e mia tentávamos convencer o outro a nos levar para dentro.

Ah, como é bom ser mulher! Como tudo fica fácil! É só vestir uma saia hiper curta, uma blusa hiper transparente e fazer cara de "quero dar para você". Difícil um homem que resista, principalmente quando se trata de mulheres bonitas, o que, definitivamente, sem falsa modéstia, eu e mia somos.

O imbecil levou mr. white para conversar com um "superior" lá dentro. A câmera fora confiscada e todas as fotos apagadas, inclusive as que não eram daquele lugar. Continuam truculentos e burros por ali. Deve ser o ar de "antanho", como diria um velho e antiquado amigo. Enquanto andava até a sala do tal "superior", mr. white registrava tudo na cabeça, como o número de passos até determinado local, número de merdinhas lá dentro, os nomes, as caras etc. Possui visão e memória privilegiadas, este meu companheiro.

Eu e mia iríamos conhecer os bastidores do local. Não fora difícil, como já disse. O imbecil que nos coube, excitadíssimo, esperou o colega que levara mr. white voltar para nos fazer as honras da casa. Nem foi grande o sacrifício, o rapaz não era feio. Era até bonitinho, o filho da puta.

Conhecemos, além dos bastidores daquele lugar imundo, os bastidores do merdinha do guarda. O fato até merece uma descrição, mas deixarei para um próximo texto. Preciso mesmo tomar conta deste blog, antes que algum leitor vomite com a clarissa ou tente se matar com a mojo.


bonnie

3 de mai de 2007

Consolo na praia

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o "humour"?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

carlos drummond de andrade


clarissa, para mrs. mojo rising :)

Tempestade cerebral

Mesmo sem te ver... É, acho que estou indo bem. As recaídas são apenas decepção com outro amor. Tenho me apaixonado a cada semana, não consigo concentrar, não consigo focar. "Você tem que investir". Ah, não quero, quero um amor a cada semana. Mas, então, me decepciono, ou porque enjôo ou porque enjoam de mim antes. Aí é que vem a recaída. Aquela história de maior referência de amor, você sabe. E pior. Isso confunde a cabeça de qualquer indivíduo. Olha aí, olha aí, já estou ficando confusa. Eu não quero você, isso eu sei. Nem que viesse com a cara do Edward Norton ou do Ewan MacGregor em Moulin Rouge (aiai) ou dele, você sabe. Do Jim. Pelo menos disso eu sei. Ufa.

Foi quando mesmo que aconteceu? Aconteceu mesmo? Ah, é verdade, acho que sim, acho que amei um dia e sofri no outro, assim como pensei em revolução. Eles tinham razão em relação a esse papo de ficar velho. É claro que não dá para mudar o mundo. Se não dá para mudar nem a nossa vida. Digo mudar mesmo, de verdade, tudo. Não dá. Uma ou outra coisa a gente vai ajeitando. Arruma um emprego bacana, escreve, dança, sai de casa, pinta o cabelo. Mas mudar tudo mesmo, não dá, porque não depende só de nós, ora bolas. Que dirá o mundo, esse troço enorme, fico até tonta de pensar.

Mas de uma coisa não abro mão: acredito na revolução do que está ao meu alcance. Não se faça de besta perto de mim, estou pior do que nunca, porque mais esperta. Continuo explodindo, mas com uma estratégia que vou te contar. Estou super estratégica, supermegahiperultra estratégica. A gente aprende com a idade, eles tinham razão. Mas a idade não pode servir para justificar qualquer coisa também, não é? Peralá, eu também já tive 20 anos e não "matei" ninguém por causa disso. Aliás, eu era tão mais legal. Porque eu acreditava. Eu acho que quanto mais a gente acredita, mais legal a gente é. E quanto mais novo a gente é, mais a gente acredita. Então, quanto mais novo, mais legal a gente é. Logo, aos 20 a gente deve ser muito mais legal do que aos 30. E se aos 20 a gente foi um monstro, não quero nem imaginar como será mais tarde. Ui, medo.

Muitas vezes não se trata nem do fato em si, mas de como lidamos com ele. Durante e depois. Sei lá, mas eu não teria coragem de criticar e controlar e exigir comportamentos específicos de alguém com quem eu fosse o maior canalha do mundo. Depois que me descobrissem, então, e que tudo terminasse, menos ainda. Simplesmente não conseguiria. Acho que é uma questão de caráter. Se eu faço o diabo, não posso exigir um santo do meu lado. Não queria ter 20 anos de novo, ah, não. Muito melhor saber que o ser humano não presta. Eu fico triste, é verdade, mas não me engano mais.

E ainda posso ser tão fofinha... Só que na hora certa. Ah, sim, posso sim. No fundo, eu sou um doce. Nossa, eu sou um brigadeiro, um cajuzinho, um bolo de cenoura. Mas não pode ser assim sempre. Fica chato. Odeio gente que sorri o tempo todo. Detesto quem não muda com a lua, com a música, com um beijo. Sempre igual, aquele troço estampado no rosto. Gosto do bico também, da sobrancelha franzida. Um rosto serve para expressar tanta coisa, que falta de imaginação. Meu sorriso pode ser o mais radiante da festa, mas faço dele um evento à parte. Todos ficam tentando, esperando, querendo descobrir o que me faz fofinha, o que me faz sorrir. Mas cuidado, muito cuidado: agora eu também sei fingir.


mrs. mojo rising